13 de dezembro , 2021

A arquitetura brasileira conta com grandes nomes e seus projetos revelam muito sobre as cidades, refletindo os hábitos da sociedade em diferentes épocas

Museu Oscar Niemeyer. Foto de José Fernando Ogura/AEN

 

A arquitetura expressa a história da humanidade e revela diferentes aspectos de uma sociedade. Isso inclui as suas diferentes vertentes de atuação, do planejamento urbano às construções e as demais soluções de paisagismo e ambientes projetados. Ao mesmo tempo, ela estabelece uma relação direta com o nosso bem-estar e a forma como nos relacionamos com os espaços e as cidades.

Diante desse contexto, celebrar o trabalho dos profissionais de arquitetura e urbanismo é uma importante demonstração do quanto eles transformam vidas.

Para o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil – CAU/BR, a celebração anual, no dia 15 de dezembro, tem duplo valor: “o de homenagear um grupo profissional que equilibra a sensibilidade da arte com a ciência e técnica, bem como o de resgatar o poder de planejamento das cidades brasileiras e do próprio Estado”.

No Brasil, a data coincide com o nascimento de Oscar Niemeyer – considerado uma das figuras-chaves no desenvolvimento da arquitetura modernista. O arquiteto, aclamado mundialmente com diversas premiações ao longo da vida, morreu em 2012 aos 104 anos.

Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) / João Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi. Foto: Fernando Stankuns

 

Arquitetura multifacetada define o Brasil

Por muito tempo, a arquitetura brasileira foi influenciada pelos estilos colonial e neoclássico, vindos quase que exclusivamente da Europa. Essa característica é vista com frequência em palácios, prédios e inúmeras construções públicas. No entanto, no interior do Brasil, o Barroco e o Rococó tiveram uma grande influência, especialmente na construção de igrejas e outros edifícios sacros.

O arquiteto, escultor e entalhador Antônio Francisco Lisboa (1738–1814), o Aleijadinho, é considerado um dos expoentes deste período. Pouco se sabe com certeza sobre sua biografia, dada a ausência de documentos oficiais e pesquisas mais aprofundadas, mas até hoje críticos e historiadores de arte debatem o seu legado. Seus trabalhos podem ser vistos em diversas cidades mineiras, como Sabará, São João del Rei, Mariana, Caeté, Barão de Cocais e Tiradentes, sendo sua obra mais aclamada a Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto (MG).

À medida que as principais cidades do sudeste do Brasil começaram a crescer com a expansão do comércio do café, a arquitetura brasileira ganhou novos contornos. Nessa época, um dos arquitetos mais influente foi Francisco de Paula Ramos de Azevedo (1851–1928). Com formação na Bélgica (1878), retornou ao Brasil para estabelecer seu escritório profissional no final do século 19, combinando vários estilos: Barroco, Renascentista e Art Nouveau. Na capital paulista, projetou e construiu diversos edifícios que se tornaram marcos arquitetônicos na cidade, como o Theatro e o Mercado Municipais, a Pinacoteca do Estado, o Palácio da Justiça e muitos outros projetos residenciais.

Theatro Municipal de São Paulo. Foto: Sylvia Masini 

 

O legado da arquitetura modernista

Mas foi no século 20 que a arquitetura brasileira começou a ter um estilo próprio, mesmo com a influência de europeus como Ludwig Mies van der Rohe, Walter Gropius, fundador da Escola Bauhaus, e Le Corbusier. Isso se deu principalmente após uma mudança de postura e atitude adotada a partir da Semana de Arte de 1922. A efervescência cultural e rompimento com os padrões vigentes foram determinantes para esse cenário.

Em paralelo, entre as décadas de 1930 e 1950, nasceu o modernismo brasileiro. A construção de Brasília (DF), sob o comando de Oscar Niemeyer (1907–2012) e Lúcio Costa (1902–1998), é o principal símbolo desse período.

Mestre em desenhar curvas no concreto armado, Oscar Niemeyer conta ainda com uma extensa lista de importantes edificações espalhadas por diversas cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, Curitiba, São Paulo e Belo Horizonte. Há também obras em Paris (França) e Nova York (EUA), incluindo a sede da Organização das Nações Unidas (ONU). O edifício foi concebido em colaboração com Le Corbusier, por meio de uma comissão liderada por Wallace K. Harrison.

MASP, por Lina Bo Bardi – Foto Rovena Rosa / Agência Brasil 

 

Figuras importantes da arquitetura brasileira

Mas não existe uma linguagem única e dezenas de outros talentosos profissionais criaram a sua própria expressão, com diferentes soluções na área de arquitetura, urbanismo ou até mesmo no design.

Com construções que transformaram edifícios em marcos da arquitetura brasileira, João Batista Villanova Artigas (1915–1985), Lina Bo Bardi (1914–1992), Paulo Mendes da Rocha (1928–2021) e Ruy Ohtake (1938–2021) marcaram época e influenciam as gerações contemporâneas de arquitetos.

Com traços simples e precisos, sempre valorizando os espaços coletivos e de convivência, esses profissionais também se distinguiam pela ênfase nas técnicas construtivas. Nada de ostentação, só simplicidade.

No caso de Ruy Ohtake e Lina Bo Bardi, vale destacar que eles tinham a mesma predileção pelo concreto da arquitetura moderna, porém com uma abertura maior para cores e outros materiais.

Hotel Unique, por Ruy_Ohtake. Foto André Deak / Arte Fora do Museu 

 

Mobilidade urbana e paisagismo

Jaime Lerner (1937–2021) é outro profissional que será estudado por muitas gerações de arquitetos e urbanistas. Com ideias extremamente inovadoras à sua época e aplicações de sucesso, ele desenhou parques e idealizou a Rua XV, no centro de Curitiba (PR) – a primeira rua exclusiva para pedestres no Brasil. Lerner criou ainda espaços públicos emblemáticos para a cidade, como o Jardim Botânico, a Ópera de Arame e a Rua 24 horas.

É dele também a ideia do sistema de mobilidade urbana implementado na capital paranaense, ainda na década de 80. Batizado posteriormente de BRT (Bus Rapid Transportation), o sistema consiste em ônibus articulados trafegando em vias exclusivas, com estações icônicas (estações tubos) projetadas pelo arquiteto e urbanista Abrão Assad. Na prática, o sistema apresenta uma eficiência próxima a de um metrô, mas com um custo de implantação mais baixo. A solução foi replicada em muitas cidades no mundo.

Sistema de ônibus biarticulado por vias exclusivas em Curitiba (PR). Foto: Acervo Ippuc 

 

Roberto Burle Marx (1909–1994) e Rosa Grena Kliass (1932–presente) igualmente merecem reconhecimento pela introdução do paisagismo arquitetônico no Brasil. Além da preservação ambiental, chama atenção a proposta de sempre criar espaços que contemplam a diversidade e tornam a cidade viva.

O fato é que a arquitetura brasileira recebeu múltiplas influências, com reflexos de todas as culturas e etnias que formaram nosso povo. Além disso, características geográficas também foram determinantes para moldar hábitos e o estilo de vida das pessoas, garantindo uma diversidade ainda maior às edificações e planos urbanísticos em diferentes regiões do Brasil. Sem contar a imensa leva de profissionais altamente qualificados e que estão deixando novos legados com suas obras e projetos.