8 de março , 2021

Reconhecimento passa pela quebra de paradigmas e prática de uma nova mentalidade, mas é possível alcançar um impacto positivo com respeito e igualdade

 

Crédito: Pexels

 

As expressões “mulheres na arquitetura” ou “arquitetas mulheres” são utilizadas na sociedade, de uma forma geral, para descrever o talento de muitas profissionais. O mesmo vale para os mercados de artes plásticas, design, decoração, paisagismo, criatividade e tantos outros segmentos de negócios. E a maioria dessas menções acabam ganhando relevância no mês de março, por ocasião do Dia Internacional da Mulher, comemorado no dia 8.

Mas é um paradoxo que, mesmo no século 21, esse reconhecimento e a desigualdade de gênero continuem a ser uma causa de preocupação. Ainda mais se considerarmos que as arquitetas são maioria no Brasil – representando cerca de 63% do total de 167.060 arquitetos registrados, segundo dados do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/BR; 2019).

Na faixa até 30 anos, a representação das mulheres alcança 73% do total de profissionais. Mas a própria entidade reconhece que as mulheres ainda ganham menos prêmios, menos concursos e representam uma minoria em organizações da categoria.

Dados da Associação Brasileira de Design de Interiores (ABD) indicam ainda que o País conta com mais de 80 mil profissionais atuando no mercado, onde 80% destes são mulheres.

Como se vê, personagens não faltam, mas há muito a ser construído. Naturalmente, essa discussão não apresenta uma simples resposta, sendo necessário um amplo debate para entender o contexto histórico, novas perspectivas, mapear a produção arquitetônica feminina nacional, além de avaliar trajetórias profissionais.

Inclusive, diversos coletivos surgiram recentemente para debater novos cenários e destacar a representação das mulheres nos setores de arquitetura, construção civil, design e urbanismo. Entre as iniciativas para acompanhar, temos: Arquitetas inVisíveis, Projeto Arquitetas Negras, Part W e Women Architects World Map.

 

Zaha Hadid Architects

 

Representação profissional

Fora do país, o mapeamento e valorização das profissionais também vem sendo objeto de análise. Entre as premiações internacionais, o Pritzker, considerado o Nobel da profissão, levou 26 anos para premiar uma mulher pela primeira vez, a iraquiana Zaha Hadid (1950-2016), em 2004.

Depois disso, a premiação de outras arquitetas ocorreu duas vezes, mas sempre ao lado de sócios / parceiros; em 2010 tivemos a vitória da japonesa Kazuyo Sejima ao lado de Ryue Nishizawa, sócios no escritório SANAA, e em 2017 foi a vez da espanhola Carme Pigem, que venceu junto aos sócios Ramon Vilalta e Rafael Aranda, do escritório RCR.

 

 

Já em 2020, Yvonne Farrell e Shelley McNamara, da Grafton Architects, se tornaram a primeira dupla de mulheres a receber a honraria, em 41 anos de prêmio. Educadoras e arquitetas, o júri destacou as intervenções contextuais e modernas de seus projetos na Irlanda, Reino Unido, França, Itália e Peru, sempre atentas à história e demonstrando altos níveis de sensibilidade e habilidade.

Vale lembrar que dois brasileiros também foram laureados: Oscar Niemeyer, em 1988, e Paulo Mendes da Rocha, em 2006.

 

Contribuição significativa

Não são poucos os exemplos de profissionais inovadoras, ousadas e que têm acrescentado, cada uma à sua maneira, uma contribuição fundamental. No cenário contemporâneo, nomes como Carla Juaçaba, Débora Aguiar, Elisabete França, Fernanda Marques, Claudia Moreira Salles, Gabriela de Matos, Marta Moreira, Mila Strauss, Patrícia Anastassiadis e Rosa Grena Kliass são algumas das profissionais citadas por suas trajetórias.

A verdade é que todas as mulheres desafiam o “status quo” diariamente, causando impactos positivos ao projetar edifícios comerciais, residências, museus, intervenções urbanas e muitas outras manifestações artísticas. Além, é claro, de dar voz a esse importante debate.

Mas sempre há trabalhos que chamam nossa atenção, por sua influência, por apresentar visões que inspiram novos estilos ou ainda maneiras de pensar e executar novas obras. Por isso, trazemos três nomes que merecem lembrança!

 

Crédito: Wikipédia

 

Jane Jacobs

A norte-amerinaca Jane Jacobs (1916-2006), ainda que não tenha formação oficial na área de arquitetura e urbanismo, consta em milhares de listas de profissionais que influenciaram o morar e as cidades. A construção de seu trabalho e linha de raciocínio é uma profunda apreciação da importância do conhecimento local, do planejamento descentralizado e das ações que estruturam a vida urbana. Seu livro “Morte e Vida nas Grandes Cidades”, de 1961, pode ser encarado como um manual de planejamento urbano e economia para as cidades.

Na visão de Jacobs, confrontando diversas linhas de pensamento à época e outros influentes profissionais, os grandes conjuntos habitacionais, isolados, ligados entre si por grandes avenidas cheias de carros e vazias de gente, acabam por nutrir a vida das cidades.

No seu modelo, para o desenvolvimento de bairros e cidades, é preciso haver diversidade de usos, escalas, edifícios, lojas e comércio de rua, parques, habitação e pessoas convivendo em harmonia – e principalmente vida nas ruas. Só essa mistura heterogênea garante que a rua seja interessante o suficiente para enchê-la, evitando bairros comerciais abarrotados durante o dia e desertos à noite, com vidas restritas ao espaço privado (!).

 

Crédito: Leonardo Finotti

 

Carolina Bueno

A arquiteta Carolina Bueno (1974-2021), co-fundadora do escritório franco-brasileiro Triptyque Architecture, também apresentava uma trajetória de destaque, criando projetos que marcam a paisagem de São Paulo e de outras cidades no Brasil e no mundo. Além disso, buscava enfrentar a problemática das cidades emergentes, desenvolvendo estudos sobre a evolução dos espaços urbanos e da construção moderna.

Sua investigação também abrangia o uso da madeira em edifícios verticais no Brasil e soluções projetuais de “arquitetura tropical” – como ela gostava de chamar as soluções que seu escritório tem adotado ao abordar o clima brasileiro e as relações com a água.

 

Crédito: Instituto Bobardi

 

Lina Bo Bardi

A italo-brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992) é das figuras mais importantes do cenário nacional e internacional, sendo apresentada como arquiteta, designer de móveis, ativista, escritora, educadora e curadora. A integração entre culturas, concreto e natureza, e a ressignificação de espaços abandonados pela expansão das cidades são ideias que ela valorizou e pôs em prática.

Entre suas obras estão o Museu de Artes de São Paulo – MASP (1968), o Sesc Pompeia (1982), a reforma do Teatro Oficina (1984) e a Casa de Vidro (1951) – sede do seu Instituto e que abriga um museu aberto à visitação.

No design de móveis, a profissional é reconhecida por utilizar as formas simples do modernismo e a padronização, mas sem esquecer de valorizar a cultura e o artesanato brasileiros. A curadoria do Museu do Design de Londres também a destaca por garantir, por meio do uso de diferentes materiais, como o barro e a palha, um calor e uma variedade de texturas que faltaram aos seus contemporâneos modernistas.

 

Negócios sob a ótica feminina

Sabemos que o caminho rumo a esse reconhecimento passa pela internalização (quebra!) de novos paradigmas e prática de uma nova mentalidade, mas é possível alcançar um impacto positivo com respeito e igualdade.

E para você, que profissionais têm conquistado reconhecimento, nacional ou local, como agentes de transformação da arquitetura, do design, do espaço urbano e, claro, da sociedade?

 

Artigo escrito por Habitus Brasil