22 de setembro , 2021

A palavra-chave para a edição de 2021 do Salone del Mobile é “novo”. Um novo formato de exposição, nova presidência, uma nova equipe de curadores, uma nova plataforma de negócios, novas ativações e uma nova forma de enxergar o design. Vitrine indispensável para o mercado de arquitetura, interiores e mobiliário, o iSaloni revelou ainda a busca por uma nova identidade frente a importantes desafios: sustentabilidade, digitalização, inovação, criatividade, inclusão e promoção do bem-estar. 

Podemos dizer que o Supersalone, realizado entre os dias 5 e 10 de setembro, representou um processo completo de ressignificação… da cidade de Milão, do evento, empresas e profissionais. Essa visão, inclusive, foi ressaltada pela presidente Maria Porro: “Este evento desencadeou uma poderosa reação em cadeia – seu valor vai muito além de apenas uma feira de negócios”. 

Crédito: Cortesia Salone del Mobile.Milano – Diego Ravier

 

Nova plataforma de negócios

Sob curadoria do arquiteto italiano Stefano Boeri, a feira dispensou os estandes tradicionais de exibição, com as proporções de uma casa. O novo conceito trouxe corredores com paredes verticais de exposição e alguns poucos metros quadrados para que os 425 expositores (cerca de um quarto do normal) pudessem expor móveis, artigos de iluminação e acessórios sobre plataformas no piso. 

A experiência, entre elogios e críticas, tornou o evento mais dinâmico, obrigou as marcas a se concentrarem em suas competências (ou produtos-chave) e colaborou com a proposta de sustentabilidade e economia circular defendida pelos curadores. O modelo também é uma resposta ao cenário pandêmico.

Crédito: Frigerio, Cortesia Salone del Mobile.Milano – Andrea Mariani

 

Outra mudança foi a abertura do evento ao público, diferente de outras edições quando o acesso era limitado a lojistas, profissionais e membros da imprensa. A atenção aos protocolos de segurança para acesso à feira e eventos foi cuidadosamente observada. Também pela primeira vez, muitos dos produtos expostos estavam disponíveis para venda online, com acesso via código QR para facilitar a consulta de informações e compra. 

Resta saber se esta nova fórmula provará seu valor e quais iniciativas terão continuidade de 5 a 10 de abril de 2022, quando teremos a 60ª edição do Salone del Mobile. Contudo, uma tradição não se alterou: a celebração do design em Milão. 

Abaixo, estão nossas impressões do que foi particularmente notável durante a Semana de Design de Milão, tanto do Supersalone como do programa independente do Fuorisalone, que acontece em galerias, parques, lojas, museus, palácios e universidades de Milão. 

Crédito: Cortesia Salone del Mobile.Milano – Diego Ravier

 

1. Cadeia de valor sustentável

Essa discussão já não é sobre estampar frases de efeito e ter um produto passível de reciclagem, mas sobre como, onde, quando, por quem ele foi produzido e, ainda, para onde ele vai. Não existe uma solução “única para todos”, mas todas as estratégicas caminham para se afastar do modelo atual de “fazer e descartar”. Outros produtos também refletem essa tendência, seja usando menos material ou matérias-primas sustentáveis, ou ainda com a revisão de embalagens e cadeias de distribuição. O objetivo é um só: reduzir a pegada ecológica. 

Crédito: Jan Kath, Cortesia Salone del Mobile.Milano – Luca Orsi

 

2. Soluções viáveis para o design

Designers, artesãos, pesquisadores e fabricantes também estão moldando uma nova estética, o que inclui novos materiais: cortiça, gesso marinho, pedra calcária, bioplásticos à base de leite, restos de couro e tecidos, pigmentos vegetais e impressões 3D. Há muitas experimentações, é verdade, mas todos os conceitos estão fortemente ancorados no princípio sustentável, que vai desde o reuso até o bem-estar refletido em toda forma de viver. Esses são valores importantes para as novas gerações e será interessante ver esse diálogo entre players consagrados e designers emergentes que se atrevem a pensar de forma diferente.

Crédito: Molteni, Cortesia Salone del Mobile.Milano – Diego Ravier

 

3. Reedições em alta

Diversos ícones do passado ganharam nova vida no Supersalone 2021, incorporando novas cores ou materiais. Alguns fabricantes também reeditaram peças de sucesso, mantendo o caráter original do projeto, mas optando por revestimentos mais sustentáveis. Fica claro ainda o interesse por experiências afetivas e nostálgicas, além do fato de que muitos desses produtos acabam evidenciando as raízes de uma marca. Eles também são garantia de storytelling e permitem resgatar o passado de forma poética em busca do futuro.

Crédito: Clei, Cortesia Salone del Mobile.Milano – Diego Ravier

 

4. Caráter híbrido em evolução

Conforto, design modular e atemporalidade. Esse tripé marca uma nova visão para o mobiliário, principalmente depois que a pandemia impôs a realidade do escritório doméstico para muitos profissionais. Os móveis devem ser capazes de atender todas as áreas de estar e office, sem sacrificar o conforto ou a estética. Em vez da função unilateral, uma abordagem mais inteligente e dinâmica, inclusive para transformar um local rapidamente. 

Nota-se que o principal objetivo é ter móveis e objetos em harmonia com estilos de vida em evolução. Contudo, é preciso ressaltar a presença suave de grandes novidades no mobiliário apresentado. É verdade que nem todos os novos produtos puderam ser expostos na feira e dezenas de importantes players não estiveram presentes, mas as análises de mudança, feitas nos últimos dois anos, ainda não estiveram totalmente visíveis. Seguramente, há espaço para evolução.

Credito: Amini, Cortesia Salone del Mobile.Milano – Diego Ravier

 

5. Têxteis para decorar e tocar

Ao mesmo tempo em que vemos a redução ao essencial de um lado, temos a busca de conforto e uma atmosfera lúdica do outro. Com isso, revestimentos têxteis e tapetes ganham novo status, inclusive como decoração de parede ou obra de arte. A associação com o artesanato é outro ponto positivo dessa tendência. Cores vivas, monocromáticas, jogos de geometria ou desenhos em planos bidimensionais, além de diferentes formatos e tamanhos, permitem criar uma atmosfera harmoniosa ou incorporar uma peça elegante para dar vida aos ambientes.

Credito: Limonta, Cortesia Salone del Mobile.Milano – Diego Ravier

 

6. Trend colors no Supersalone

Interpretar a Semana de Design de Milão é sempre uma tarefa complexa, mas ficou muito claro que o impacto visual e potencial lúdico das cores é cada vez mais necessário – e presente – na composição dos ambientes. Podemos dizer que as combinações de cores para 2021 são muito equilibradas, com as tonalidades de amarelo, azul, verde, violeta, terracota e laranja dominando as principais coleções e lançamentos. 

Crédito: Bonaldo, Cortesia Salone del Mobile.Milano – Diego Ravier

 

7. Conforto, inspiração e texturas

Nos móveis expostos ficou evidente a valorização de formas mais orgânicas e linhas fluídas, buscando uma leveza formal. O tempo presente em casa também revela que o conforto nos espaços (não só de cadeiras e assentos) é um requisito essencial – mesmo para quem antes privilegiava a estética em primeiro lugar. Passando cada vez mais tempo “online”, a linguagem dos materiais é importante para dar uma sensação de fisicalidade e textura. Daí a proposta de móveis que nascem para serem tocados, com uma consistente mescla de materiais, cores e texturas.

Crédito: Panzeri, Cortesia Salone del Mobile.Milano – Diego Ravier

 

8. Inspiração que ilumina

Esse é um dos segmentos que mais apresenta inovações em Milão, ano após ano. São inúmeras as novas soluções de iluminação, com uma gama impressionante de formas, engenhosidade técnica e acabamentos. Com isso, impressiona a variedade de cenários internos e externos que se pode obter com as novas luminárias pendentes ou de suspensão, de mesa, parede, de piso ou peças móveis. Moldar a luz, para obter conforto visual e bem-estar, é uma realidade.

Crédito: CC-Tapis, Cortesia Salone del Mobile.Milano – Diego Ravier

 

9. Voz para todos

Outra vertente de Milão – e do design – são as bandeiras de uma sociedade em evolução: amor, empatia, o fazer coletivo, respeito às diferenças e a presença feminina. Com formas alegres de nuvens e um vórtice de cores, Venus Power, de Patricia Urquiola para CC-Tapis, busca encorajar todos a abraçar, ouvir e incorporar atributos femininos que convivem em todas nós. Ou seja, a coleção expressa um manifesto que nos faz pensar (sonhar!) na necessidade de um mundo onde a coexistência seja mais natural.

Crédito: Cortesia Hermès

 

9. Moda e design para “vestir” a casa 

Mesmo com a ausência de importantes nomes, como Prada, Fendi e Louis Vuitton, que optaram por não participar da semana de design de Milão, grandes players do setor de moda seguem apostando no segmento “casa” como uma extensão de suas marcas. 

A Hermès, por exemplo, apresentou suas novidades em cinco casas gigantescas de barro pintado. A visão em perspectiva, através dos cinco edifícios, criou uma percepção espacial bem interessante e os visitantes também eram convidados a percorrer o espaço suavemente iluminado com areia sob os pés. Um detalhe que ajudava a enfatizar a textura e natureza crua dos materiais presentes no mobiliário, concebidos para serem tocados. Os motivos nas paredes retomaram as cores e formas da coleção. 

Armani Casa, Gucci, Versace e Zara Home também marcaram presença em Milão, assim como a Dior, que buscou associações com arquitetos, designs e outros artistas para seu projeto. A marca convidou 17 profissionais para assinarem novas interpretações da icônica cadeira Médaillon, criada pelo carpinteiro Louis Delanois em 1769, para o rei Luís XVI. 

Crédito: Cortesia Salone del Mobile.Milano – Andrea Mariani

 

10. As novidades no segmento de Cozinhas

Apesar das poucas inovações, certamente reservadas para a Eurocucina 2022, os fabricantes apostaram em cozinhas elegantes, funcionais e com forte cunho arquitetônico. A ideia é que todo o mobiliário possa viver em harmonia e diálogo contínuo com a sala de estar e os demais cômodos da casa.

Para isso, os fabricantes buscaram no charme dos materiais – madeira, pedra, perfis metálicos e vidro, tudo junto –, incorporar um conceito elegante às coleções. Muitos projetos também apostam em blocos de cores neutras e terrosas, além de materiais híbridos, para que o espaço da cozinha se comunique com a sala.

Os sistemas de armários são totalmente personalizáveis, projetados para esconder o canto da cozinha, eletros ou a lavanderia, mas também permitir soluções composicionais de qualquer tipo – linear, de canto e ilha.

No design, prevalecem as combinações de módulos com volumes maiores, volumes vazios e tampos de diferentes espessuras, criando um elegante jogo de equilíbrio. Muitos tampos surgiram em versões maxi, valorizando o desenho das pedras. Portas com moldura elegante e minimalista, além da iluminação interna com luzes LED, estão presentes em grande parte das coleções. 

Artigo exclusivo por Habitus Brasil